Se a esta altura do campeonato eu não tivesse já uma noção muito exacta de quem são os meus verdadeiros amigos, convenhamos, o melhor seria fazerem-me uma lobotomia. Por isso, oh ignorados da minha vida poupem-se a esforços. Acresce o facto de eu não gostar que me toquem [vulgo festinhas no ombro, que nojo] nem ter paciência para descobrir em cinco segundos quão grande é a amizade que vocês [assim, de repente, sei lá] me têm.

 Moi, je sais tous tes sortilèges. Tu sais tous mes envoûtements.
Seriously, I am not really a people person. I just said that to get the job.
Fecham-se e abrem-se os olhos e uma década passou a correr. Ainda ontem uma família inteira recusava-se a dar-me tal notícia. Ainda ontem a minha mãe assumiu para si tal tarefa. Ainda ontem andei horas e horas caminhando perdida pelas ruas da minha cidade sem que me lembre, ainda hoje, quais os caminhos percorridos. Ainda ontem o adro da igreja estava cheio, carregado de luto, e eu sem suportar que as pessoas me tocassem, não que o seu conforto não me fosse querido mas tão só porque até a pele me doía. Ainda ontem os sinos tocaram às três e meia da tarde e nesse momento percebi que tudo aquilo era real. Às três e meia da tarde, os sinos tocaram, as pernas traíram-me e eu ajoelhei-me diante do teu corpo. Nunca até então tinha percebido que coisa era essa a que chamavam perda e que era capaz de nos deixar prostrados ao ponto de sermos incapazes de dizer o que seja, gritar o que seja, fazer o que seja.

Ainda hoje não consigo ouvir tocar os sinos de uma igreja. Ainda hoje sinto a falta do teu cheiro, das tuas mãos no meu cabelo, da forma como me chamando de “minha neta” me fazias sentir a pessoa mais amada e importante e especial do mundo inteiro. Ainda hoje, avó, no meio de todos livros, de todas as porcelanas e pratas, no meio das mantas e dos quadros, no meio de toda aquela ordem particular que reina em minha casa, as tuas fotografias continuam no hall de entrada e no meu quarto. Ainda hoje, preciso de te ver assim que chego a casa e de acreditar que continuas a vigiar-me os sonos.
Eu não suporto as manhãs e eu não gosto de falar ao telefone. Ora se A + B = C, isto significa que C - B = A. Dito de outra forma, não me liguem de manhã, caralho. Ou então, se o assunto for mesmo, mesmo, urgente e a vossa chamada uma inevitabilidade porque, com tanta gente [biliões, pá, biliões de gente] por esse mundo fora, eu sou [na vossa cabeça, só pode] a única pessoa em condições de vos ajudar, não perguntem se estou mal disposta. Digam ao que vêm e ponham-se na alheta rapidinho.
 Speak softly love.
Houve uma época da minha vida em que me ocupava em demasia com pessoas e assuntos que acrescentavam muito pouco aos meus dias. Mais tarde, num acto de inteligência ou de puro egoísmo, fui fechando portas. Hoje, só me dou a quem, com quem, como e quando quero. 

© Maria [15.03.2010]

Orgulhosamente só não é um “estado de alma” para quem quer, mas para quem pode. Ou dito de outra maneira, eu dispenso bem o ingresso em grupos [leia-se carneiradas] e não faço seguramente o papel de emplastre ou penetra. Por isso, pessoas que costumam fazer tudo juntinhas, qual par de jarras, wake up. Uma coisa é o isolamento forçado [do tipo ninguém quer estar perto de vós] outra é o isolamento auto imposto [do tipo ponham-se no caralho que eu não vos quero ao pé de mim]. Get the difference.
Eu aviso sempre  que não tenho a menor vocação para pessoas, que bicho do mato mais bicho não há, que entrar no meu mundo leva tempo, que isto não é chegar, conhecer e vai de ficar, logo ali, best friends forever. Eu aviso sempre. Mas, por alguma razão, há quem pense que estou a brincar, que não é bem assim, que me estou a armar em DIVA, a fazer de difícil, eu sei lá, e depois ficam todos muito ofendidos com o meu ar enojado sempre que me vêm com putativas intimidades.

Eu não gosto de beijar pessoas que não me dizem nada, não faço amigos no local de trabalho[só conhecidos e mesmo assim], contam-se pelos dedos de uma mão quem frequenta a minha casa, não preciso de companhia para ir à casa de banho nem para almoçar e não quero saber da vida dos outros para nada. Eu sou uma snob, pá. Mas aviso sempre.
Há tempos, diziam-me quase a medo que a primeira impressão com que ficaram quando me conheceram foi a de que eu era uma pessoa fria. Sorri. Convenhamos, o que me estás a querer dizer é que ficaste com a ideia de que eu era uma snob, uma cabra petulante, uma arrogante de merda que olha os outros de cima a baixo, sempre com o sobrolho empinado. É verdade, eu sou tudo isso. A grande vantagem é que só desço da escadaria para me dar com quem quero.
Há um tempo na nossa vida em que, de uma forma mais ou menos esporádica, damos azo àquela velha tendência de querer que os outros e as circunstâncias mudem, pelo simples facto de considerarmos que a razão está do nosso lado.Depois, tempos há em que concluímos que afinal ter a dita razão, por si só, acrescenta muito pouco aos nossos dias. Nessa altura, desistimos de nos queixar do vento, de esperar que este mude e decidimos tão somente ajustar as velas.
À semelhança de JC que, depois de baptizado, foi conduzido ao deserto para ser tentado pelo demo, todos nós numa determinada altura das nossas vidas somos levados a esse mesmo lugar. E é precisamente aí, na adversidade, que a essência de um indivíduo é tentada e testada. O meu deserto pode ser árido e a minha travessia longa e dura mas eu nunca fui mulher de vender a alma ao Diabo.
Quando as pessoas crescem, se moldam e se formam num contexto adverso e de extrema solidão, tal não significa que tenham perdido a capacidade de dar, de se interessar ou de apoiar os outros. Significa, tão só e apenas, que aprenderam a não contar com os demais para o que quer que seja.
Eu ainda sou do tempo em que as pessoas iam à mercearia do Bairro [os mini, super e hiper-mercados eram coisa de estrangeiros] comprar não aquilo que verdadeiramente necessitavam mas tão só aquilo que o dinheiro de que dispunham permitia adquirir. No dia a dia, eram irrelevantes as preferências e os gostos de cada um. Comprava-se a fruta da época porque era a mais barata, pediam-se seis fatias de fiambre, quatro carapaus e, regra geral, as coisas eram embrulhadas em papel pardo que depois se aproveitava para absorver o excesso de óleo quando se fritava a comida.
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Hoje, passados quase trinta anos, na mercearia do Bairro, voltei a recuar no tempo quando uma Senhora confrontada com o valor final das compras que tinha no saco, olhou para o dinheiro que trazia na mão e vagarosamente, com os olhos baixos, tirou duas batatas, três cenouras, um nabo, um shampoo e perguntou “E agora? Acha que chega?”

Senti-me envergonhada por estar ali, por ter assistido a algo que não é bonito de se ver, porque a fragilidade dos outros não devia ter plateia, porque logo hoje não tinha dinheiro suficiente comigo, porque me lembrei da minha avó a pedir-me quase em silêncio “Hoje não pode ser querida. Talvez amanhã. Amanhã a avó compra-te aquelas bolachas, sim?”.
Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo.
 Pai, afasta de mim esse cálice.

Das cicatrizes do meu chão antigo.



A minha vida teve um AT [Antes de Ti] e um DT [Depois de Ti]. Foram dez anos, com um intervalo de dois, seguidos de mais uns meses [um take dois de um filme já visto e que insistimos em retomar]. É indiscutível que parte, grande parte, da mulher que hoje sou foi moldada no aconchego dos teus braços, da tua pele e do teu cheiro. Afinal eu era uma menina com vinte e um anos e tu assumiste na plenitude o papel que Nabokov criou, em tempos, para Humbert.

Nesse tempo, descobri que o amor pode vir em espasmos ou em sussurros, que há sentidos que vão mais além do que o toque, que o prazer acossa-nos ao ponto de um murmurado “fode-me” soar a súplica, que um simples olhar é suficiente para nos cortar a respiração, que numa relação a dois o único limite é o da aceitação das partes e que é possível o controle do ritmo ébrio a que os corpos se movimentam.

Percebi que há um tempo para fazer amor e um tempo de libertação do que de mais primário há em nós, que há um tempo para conversar e um tempo de silêncios, que há um tempo para insistir e um tempo para esperar, que há um tempo de confiança e um tempo de mágoas, que há um tempo para chegar e um tempo para partir.

E é precisamente este último que importa cumprir. Não é aceitável que, volvidos dois anos, continues a invadir-me os sonhos e que, enquanto durmo, te acomodes como se nunca tivesses saído da minha cama. Não é, sequer, viável se considerarmos que não tivemos qualquer contacto desde essa data, que tu nunca mais soubeste de mim e que eu nunca mais soube de ti.

Eu sei que a distância marcada pelo tempo, pelo espaço e pelos vinte anos que nos separam nunca foi condição. Sei que ambos permanecemos demasiado importantes na vida um do outro, que tu ainda te lembras de mim e que há sempre algo no meu quotidiano que traz de volta o teu cheiro. Sei que lamentas o não teres decidido e eu o não ter esperado um pouco mais. Sei que daqui a vinte anos continuaremos a lembrar-nos mutuamente e a velha questão de sempre [que será feito de ti] permanecerá sem resposta. Só que a vida é feita de tempos. E este é o tempo de partires. Porque eu preciso, por mim.
Haver quem se assuma publicamente conhecedor e especialista em matéria de Iluminismo só porque leu a “Crítica da Razão Pura” de Kant é tão hilariante e disparatado quanto eu, uma curiosa da secção de Economia dos jornais diários, começar por aí a soltar o John Maynard Keynes que há em mim. A lobotomia, Senhor, trazei de volta a lobotomia.

Há pessoas que pura e simplesmente não conseguem manter a puta da boca fechada. Todavia, não o conseguindo, podiam ainda assim partilhar com os demais a triste condição da sua existência, mas não. É sempre muito mais interessante falar da vida alheia, dos projectos e concretizações dos demais, daquilo que os outros têm ou não têm, do que fizeram ou deixaram de fazer. Tenho pena desta gente. Convenhamos, deve ser no mínimo deprimente não ter vida digna de relato.
A correcta conjugação do verbo “dar” não só não é susceptível de ser feita de qualquer modo como requer um despojamento que se incute desde criança e se pratica dia a dia. Quando alguém precisa e eu me predisponho a dar, dou o melhor. O melhor de mim, o melhor que tenho, as coisas de que mais gosto, o mais bonito e, se possível, a estrear.

Por isso, sempre me fez [e continua a fazer] muita confusão pessoas que concebem o acto de dar como uma oportunidade para se desfazerem de tudo quanto é caco velho, partido, pindérico e horroroso que lá têm por casa. Ora o que não serve para mim, não servirá seguramente para os outros. Acresce que quem dá com o coração, dá na exacta medida do que gostaria de receber um dia se se encontrasse em igual situação de carência.

Damaged people are dangerous. They know they can survive.


Diz-se por aí que sou uma mulher de Almodóvar. Uma mulher de génio e de raivas, uma mulher de paixões e amores, ora escondidos ora perdidos, presa a um passado que teima em voltar nas horas mais inconvenientes. A verdade é que eu nunca fui uma pessoa de afectos fáceis. A vida encarregou-se de me trazer até onde me encontro e o resto da calçada fui eu quem a subiu. Com passada larga, com passada estreita, umas vezes de rojo e outras já refeita, uns dias sozinha, outros levada pela mão. A verdade é que eu sou eu mas também sou os outros e a minha condição.