Pai, afasta de mim esse cálice.

Das cicatrizes do meu chão antigo.



A minha vida teve um AT [Antes de Ti] e um DT [Depois de Ti]. Foram dez anos, com um intervalo de dois, seguidos de mais uns meses [um take dois de um filme já visto e que insistimos em retomar]. É indiscutível que parte, grande parte, da mulher que hoje sou foi moldada no aconchego dos teus braços, da tua pele e do teu cheiro. Afinal eu era uma menina com vinte e um anos e tu assumiste na plenitude o papel que Nabokov criou, em tempos, para Humbert.

Nesse tempo, descobri que o amor pode vir em espasmos ou em sussurros, que há sentidos que vão mais além do que o toque, que o prazer acossa-nos ao ponto de um murmurado “fode-me” soar a súplica, que um simples olhar é suficiente para nos cortar a respiração, que numa relação a dois o único limite é o da aceitação das partes e que é possível o controle do ritmo ébrio a que os corpos se movimentam.

Percebi que há um tempo para fazer amor e um tempo de libertação do que de mais primário há em nós, que há um tempo para conversar e um tempo de silêncios, que há um tempo para insistir e um tempo para esperar, que há um tempo de confiança e um tempo de mágoas, que há um tempo para chegar e um tempo para partir.

E é precisamente este último que importa cumprir. Não é aceitável que, volvidos dois anos, continues a invadir-me os sonhos e que, enquanto durmo, te acomodes como se nunca tivesses saído da minha cama. Não é, sequer, viável se considerarmos que não tivemos qualquer contacto desde essa data, que tu nunca mais soubeste de mim e que eu nunca mais soube de ti.

Eu sei que a distância marcada pelo tempo, pelo espaço e pelos vinte anos que nos separam nunca foi condição. Sei que ambos permanecemos demasiado importantes na vida um do outro, que tu ainda te lembras de mim e que há sempre algo no meu quotidiano que traz de volta o teu cheiro. Sei que lamentas o não teres decidido e eu o não ter esperado um pouco mais. Sei que daqui a vinte anos continuaremos a lembrar-nos mutuamente e a velha questão de sempre [que será feito de ti] permanecerá sem resposta. Só que a vida é feita de tempos. E este é o tempo de partires. Porque eu preciso, por mim.
Haver quem se assuma publicamente conhecedor e especialista em matéria de Iluminismo só porque leu a “Crítica da Razão Pura” de Kant é tão hilariante e disparatado quanto eu, uma curiosa da secção de Economia dos jornais diários, começar por aí a soltar o John Maynard Keynes que há em mim. A lobotomia, Senhor, trazei de volta a lobotomia.

Há pessoas que pura e simplesmente não conseguem manter a puta da boca fechada. Todavia, não o conseguindo, podiam ainda assim partilhar com os demais a triste condição da sua existência, mas não. É sempre muito mais interessante falar da vida alheia, dos projectos e concretizações dos demais, daquilo que os outros têm ou não têm, do que fizeram ou deixaram de fazer. Tenho pena desta gente. Convenhamos, deve ser no mínimo deprimente não ter vida digna de relato.
A correcta conjugação do verbo “dar” não só não é susceptível de ser feita de qualquer modo como requer um despojamento que se incute desde criança e se pratica dia a dia. Quando alguém precisa e eu me predisponho a dar, dou o melhor. O melhor de mim, o melhor que tenho, as coisas de que mais gosto, o mais bonito e, se possível, a estrear.

Por isso, sempre me fez [e continua a fazer] muita confusão pessoas que concebem o acto de dar como uma oportunidade para se desfazerem de tudo quanto é caco velho, partido, pindérico e horroroso que lá têm por casa. Ora o que não serve para mim, não servirá seguramente para os outros. Acresce que quem dá com o coração, dá na exacta medida do que gostaria de receber um dia se se encontrasse em igual situação de carência.

Damaged people are dangerous. They know they can survive.


Diz-se por aí que sou uma mulher de Almodóvar. Uma mulher de génio e de raivas, uma mulher de paixões e amores, ora escondidos ora perdidos, presa a um passado que teima em voltar nas horas mais inconvenientes. A verdade é que eu nunca fui uma pessoa de afectos fáceis. A vida encarregou-se de me trazer até onde me encontro e o resto da calçada fui eu quem a subiu. Com passada larga, com passada estreita, umas vezes de rojo e outras já refeita, uns dias sozinha, outros levada pela mão. A verdade é que eu sou eu mas também sou os outros e a minha condição.