Moi, je sais tous tes sortilèges. Tu sais tous mes envoûtements.
Seriously, I am not really a people person. I just said that to get the job.
Fecham-se e abrem-se os olhos e uma década passou a correr. Ainda ontem uma família inteira recusava-se a dar-me tal notícia. Ainda ontem a minha mãe assumiu para si tal tarefa. Ainda ontem andei horas e horas caminhando perdida pelas ruas da minha cidade sem que me lembre, ainda hoje, quais os caminhos percorridos. Ainda ontem o adro da igreja estava cheio, carregado de luto, e eu sem suportar que as pessoas me tocassem, não que o seu conforto não me fosse querido mas tão só porque até a pele me doía. Ainda ontem os sinos tocaram às três e meia da tarde e nesse momento percebi que tudo aquilo era real. Às três e meia da tarde, os sinos tocaram, as pernas traíram-me e eu ajoelhei-me diante do teu corpo. Nunca até então tinha percebido que coisa era essa a que chamavam perda e que era capaz de nos deixar prostrados ao ponto de sermos incapazes de dizer o que seja, gritar o que seja, fazer o que seja.

Ainda hoje não consigo ouvir tocar os sinos de uma igreja. Ainda hoje sinto a falta do teu cheiro, das tuas mãos no meu cabelo, da forma como me chamando de “minha neta” me fazias sentir a pessoa mais amada e importante e especial do mundo inteiro. Ainda hoje, avó, no meio de todos livros, de todas as porcelanas e pratas, no meio das mantas e dos quadros, no meio de toda aquela ordem particular que reina em minha casa, as tuas fotografias continuam no hall de entrada e no meu quarto. Ainda hoje, preciso de te ver assim que chego a casa e de acreditar que continuas a vigiar-me os sonos.
Eu não suporto as manhãs e eu não gosto de falar ao telefone. Ora se A + B = C, isto significa que C - B = A. Dito de outra forma, não me liguem de manhã, caralho. Ou então, se o assunto for mesmo, mesmo, urgente e a vossa chamada uma inevitabilidade porque, com tanta gente [biliões, pá, biliões de gente] por esse mundo fora, eu sou [na vossa cabeça, só pode] a única pessoa em condições de vos ajudar, não perguntem se estou mal disposta. Digam ao que vêm e ponham-se na alheta rapidinho.
 Speak softly love.
Houve uma época da minha vida em que me ocupava em demasia com pessoas e assuntos que acrescentavam muito pouco aos meus dias. Mais tarde, num acto de inteligência ou de puro egoísmo, fui fechando portas. Hoje, só me dou a quem, com quem, como e quando quero. 

© Maria [15.03.2010]

Orgulhosamente só não é um “estado de alma” para quem quer, mas para quem pode. Ou dito de outra maneira, eu dispenso bem o ingresso em grupos [leia-se carneiradas] e não faço seguramente o papel de emplastre ou penetra. Por isso, pessoas que costumam fazer tudo juntinhas, qual par de jarras, wake up. Uma coisa é o isolamento forçado [do tipo ninguém quer estar perto de vós] outra é o isolamento auto imposto [do tipo ponham-se no caralho que eu não vos quero ao pé de mim]. Get the difference.
Eu aviso sempre  que não tenho a menor vocação para pessoas, que bicho do mato mais bicho não há, que entrar no meu mundo leva tempo, que isto não é chegar, conhecer e vai de ficar, logo ali, best friends forever. Eu aviso sempre. Mas, por alguma razão, há quem pense que estou a brincar, que não é bem assim, que me estou a armar em DIVA, a fazer de difícil, eu sei lá, e depois ficam todos muito ofendidos com o meu ar enojado sempre que me vêm com putativas intimidades.

Eu não gosto de beijar pessoas que não me dizem nada, não faço amigos no local de trabalho[só conhecidos e mesmo assim], contam-se pelos dedos de uma mão quem frequenta a minha casa, não preciso de companhia para ir à casa de banho nem para almoçar e não quero saber da vida dos outros para nada. Eu sou uma snob, pá. Mas aviso sempre.
Há tempos, diziam-me quase a medo que a primeira impressão com que ficaram quando me conheceram foi a de que eu era uma pessoa fria. Sorri. Convenhamos, o que me estás a querer dizer é que ficaste com a ideia de que eu era uma snob, uma cabra petulante, uma arrogante de merda que olha os outros de cima a baixo, sempre com o sobrolho empinado. É verdade, eu sou tudo isso. A grande vantagem é que só desço da escadaria para me dar com quem quero.