![]() |
Quando a vida nos maltrata é tão fácil chegarmo-nos aos outros. Tão fácil perceber quem saltou do barco e quem se manteve ali firme. Tão óbvio saber quem é quem. Complicado, mesmo, é quando a vida nos corre bem, do tipo bem para caralho. Uma pessoa até aumenta de tamanho. Enche a boca toda só para dizer "eu". Eu isto, eu aquilo, eu [quero mais é que os outros se fodam]. Tudo bem. As pessoas podem fazer a gestão dos seus timings da forma que melhor entenderem. Podem ter lapsos, momentos de amnésia, podem assobiar para o lado ou olhar de alto. As pessoas podem tudo. Tudo. Até podem arrepiar caminho e deixarem de ser tão previsíveis. Chateia-me, pá, esta coisa de estar sempre um passo à frente. Passo por maluca sem necessidade nenhuma.
Gosto tanto quando te lembras de
mim. Assim do nada, sem motivo algum ou razão aparente. Só porque sim. Porque
te apetecia ver-me só mais um bocadinho, mais uma vez. Gosto tanto quando te
lembras de mim, me aconchegas no teu peito e dizes que sou importante. E te
importas comigo para logo de seguida me beijares a testa repetidamente. Esta
cumplicidade que temos, o teu corpo nas palmas das minhas mãos, a ternura
quando me afastas o cabelo da cara. Os pequenos gestos. O almoço na pizzaria do
bairro. Podias não ter atravessado meia cidade. Fizeste questão de passar por
aqui. Gosto tanto quando te lembras de mim.
Eu poderia ser um pouco mais normal. Um pouco menos ansiosa. Ter uma mente um pouco menos hiperactiva. Aprender a esperar um pouco mais. Contentar-me aos poucos com o que a vida me dá. Mas não. Essa coisa do pouco mexe-me com os nervos. O vai-se andando, o menos mal. Que neura. Que falta de pachorra. Eu sou pelos desafios, pelo fascínio do improvável, pelo impossível, qual roleta russa, em jeito de vai ou racha, é agora ou nunca. E isto tem dias em que cansa. Outros em que dá uma adrenalina tremenda. Eu poderia ser um pouco mais normal.
I'm in the dark here.
Não sou pessoa que inveje os demais. As lutas que travo são tão minhas, tão comigo, tão desgastantes, que objectivamente raras são as vezes que olho para o lado. Quanto muito gostaria, muito de vez em quando, de ter tido as oportunidades que outros tiveram. E é só isso que me mói. Estou farta de parir a vida a ferros. Farta.
É recorrente dizer-se que Deus
não demora, Ele capricha. Tudo bem. Se não é para ser que não seja. Se há
melhores oportunidades por aí, venham elas. Se a ideia é testar-me os níveis de
resiliência, estamos cá para isso. Agora, convenhamos, é inevitável que de vez
em quando me venha à ideia o que poderia ter sido e não foi, certo. Madagáscar,
República Democrática do Congo e Kosovo. Out. Next.
O paradoxo do fim.
Uma relação termina quando, a um dado momento, o outro se esqueceu de nós e as nossas memórias se tornam insuportáveis. O esquecimento de um e as memórias do outro, uma vez conjugados, mais do que uma relação de causa efeito, abrem sempre caminho para um lugar comum: o paradoxo de quem já não estando presente ainda assim não se foi embora bem como o silêncio das discussões que se travam quando já ninguém nos ouve.
É incrível como um simples
telefonema teu consegue destabilizar-me por completo. Uma correlação quase
perfeita entre o som da tua voz e a falência do meu sistema nervoso. O coração
que dispara, as mãos que tremem descontroladamente, o cérebro que me falha. Não
sei o que me passou pela cabeça quando vi o teu nome a piscar no visor. Até
sei. Mas não tinha nada a ver com sapatos perdidos no tempo. Disso tenho a
certeza. Terminada a chamada ali fiquei eu
com o telefone agarrado às mãos e aquele sentimento de quem foi exposto ao
ridículo. Sapatos, valha-me Deus. E eu a pensar que finalmente irias
convidar-me para tomar um café.
My God, help me to survive this deadly love.
Ao que julgo saber a vida corre-te bem. Duas das tuas maiores preocupações foram esbatidas. Tudo se reordenou e sabe-te bem o conforto da vida que tens e levas. Durante muito tempo comprei a ideia da "aparência". Que vivias uma vida que não te agradaria mas que tal se assumiria quase como que uma inevitabilidade. Um disparate pegado. Não há vidas de aparência. Cada um tem o que escolhe, vive em conformidade com isso e, quando afirma o contrário, não passa de uma vergonhosa mentira. Uma fraude, vivida dia a dia. É o que é.
Broken embraces.
A minha mãe, a minha verdadeira mãe, morreu tinha eu vinte seis anos. Lamento dizer-te mas tu não és nem nunca serás um décimo da mulher que ela foi. Com muita pena minha, confesso. Mas as coisas são como são. Nunca percebeste que a consanguinidade não é condição de afecto. Nem aqui nem em lado nenhum do mundo. E que não raras vezes as pessoas recebem no fim da vida parte do que deram ou não deram aos outros. No fim de tudo fica uma espécie de respeito que se reflecte numa espécie de dever. Apenas isso. Sem gratidão, sem boas memórias, sem afectos dos bons, com a certeza de que há incompatibilidades irremediáveis. Tu conseguiste gravar-me na pele o pior de mim. Este lado obscuro, instável, pérfido, desequilibrado, que tenho de gerir todos os dias. É suposto agradecer-te o quê, diz-me.
Faz tempo que me sinto agoniada. Não é nervoso miudinho, não é ansiedade, é uma agonia constante. Da vida aqui, dos outros, do reflexo no espelho. Ainda pensei numa qualquer crise de vesícula, mas não. Tudo me enfada, nada me apetece, o inferno em mim. Sempre o inferno em mim. Um inferno feito de cansaço, de inquietação, de uma profunda inconstância, a pressa de chegar a casa, seja lá onde isso for. Este desapego feito de desprendimento. O sentimento de não pertença, nem aqui nem em lado algum. Ainda pensei numa qualquer crise de vesícula, mas não. É uma agonia. Uma coisa que não me larga.
O bairro está em silêncio. Só o rádio da vizinha do andar de cima toca intervalado com os latidos do cão que vive dois prédios em frente. Aqui, desta cave quase sem janelas onde vivo, conheço quem me rodeia pelo sons. Faz tempo que não oiço os gritos do marido da vizinha do andar de cima. Quase uma semana estou em crer. Desde então, tem por companhia o rádio que toca insistentemente. De vez em quando oiço-a chorar. Por certo me ouvirá também.
Time to move forward.
I. Os constrangimentos dos outros são os constrangimentos dos outros. Não são os meus. Consequentemente, eu não tenho que [nem aceito] ser alvo dos mesmos nem tão pouco sofrer com os danos colaterais de problemas cuja resolução não ata nem desata.
I. Os constrangimentos dos outros são os constrangimentos dos outros. Não são os meus. Consequentemente, eu não tenho que [nem aceito] ser alvo dos mesmos nem tão pouco sofrer com os danos colaterais de problemas cuja resolução não ata nem desata.
II. Não raras vezes as pessoas aceitam e sujeitam-se, em nome de algo que [erroneamente] consideram maior, a um trato menor. Pois bem. Dizer apenas que já tive a minha dose. Been there, done that. Jurei para nunca mais.
III. Eu não sou, nunca fui, uma mulher de meio termos. Meias presenças, meios afectos, meio isto, meio aquilo. Não gosto de metades em nada na vida. E também não gosto de me repetir. As conversas são importantes, sim. Ajudam a clarificar e a esclarecer pontos de vista, sentimentos, dúvidas e caminhos. Agora, quando repetidas até à exaustão mais não são do que o sintoma de duas coisas: a indiferença do receptor e a persistência cega do emissor.
The night can be a dreadful time for lonely people.
De repente deu-me para ser esquisita e torcer o nariz a restos. Não quero, não gosto, já comi que chegue e cansei-me de esperar pacientemente junto à porta dos fundos que me convidasses para entrar e sentar. Bem vês. O problema não és tu, sou eu. Sou eu quem hoje já não tolera faltas de respeito, esperas sem fim à vista e não aceita menos do que o melhor que a vida tem para lhe dar. Bem vês, o problema não és tu, sou eu.
O tempo tornou-me exigente. E ensinou-me a partir. Assim, sem mais. Com a convicção de que aquilo que sentimos não justifica [não pode justificar] a forma como somos tratados. Hoje sei que nunca mais ninguém voltará a arrancar-me a pele ou a fazer-me mal, só porque sim. Por isso, bem vês, o problema não és tu, sou eu. Sou eu quem, mesmo correndo o risco de se perder por aí, já não sabe viver de afectos pela metade.
Room 228. Abba Berlin Hotel. Lietzenburger Str. 89.
Há um tempo na nossa vida em que, de uma forma mais ou menos esporádica, damos azo àquela velha tendência de querer que os outros e as circunstâncias mudem, pelo simples facto de considerarmos que a razão está do nosso lado. E, depois, tempos há em que concluímos que afinal ter a dita razão, por si só, acrescenta muito pouco aos nossos dias. E é nessa altura que desistimos de nos queixar do vento, de esperar que este mude e decidimos tão somente ajustar as velas.
Há um tempo na nossa vida em que, de uma forma mais ou menos esporádica, damos azo àquela velha tendência de querer que os outros e as circunstâncias mudem, pelo simples facto de considerarmos que a razão está do nosso lado. E, depois, tempos há em que concluímos que afinal ter a dita razão, por si só, acrescenta muito pouco aos nossos dias. E é nessa altura que desistimos de nos queixar do vento, de esperar que este mude e decidimos tão somente ajustar as velas.
Grata por lá ter estado. Muito.
"17 de Março de 2012. São 6 horas da manhã. Ainda há pouco cheguei a casa e já estou de saída. Por aqui misturam-se os dias com as noites, o cansaço é tremendo, o ritmo alucinante mas estou a adorar cada segundo. Hoje milhares de timorenses são chamados às urnas e o mais incrível no meio disto é que eu estou aqui para ver. Experiência incrível, minha gente, incrível. Vamos lá Timor. Tem tudo para dar certo."
Dizes, muito de vez em quando e de uma forma quase convicta, que gostas de mim quando na realidade não fazes ideia do que isso seja. Senão repara, em rigor nós só podemos gostar de quem verdadeiramente conhecemos e, francamente, tu nunca te deste a esse trabalho. Até podia dar-se o caso de eu ser uma daquelas mulheres cheia de caprichos, exigências, expectativas, extraordinariamente complexa, seja lá o que isso for e sabe Deus que mais. Mas não. Conhecer-me requer apenas ouvir-me. Simples. Até porque via de regra digo o que penso, o que quero, do que gosto, essas coisas. Por isso bem vês, estranhamente se ama quem não se ouve pela simples razão de que não se conhece. Tu não sabes o que penso nem o que quero nem do que gosto. Lamento.
Falo e escrevo em português. Não consigo exprimir-me tão bem em nenhuma outra língua. É a minha. Quando o gato me revira a gaveta das cuecas, bramo em espanhol. Coño e Puta Madre, aliviam-me os fígados. Mesmo. Nos últimos dois anos escrevi, falei e trabalhei em inglês [intervalando com tétum]. Sounds good. Há duas semanas voltei às aulas de árabe. Reviver o passado na Mesquita Central. Pânico. Hoje estive meia hora a tentar impressionar quem esteve do outro lado da linha com o pouco francês de que ainda me lembro. Quando desliguei a chamada fiquei com a impressão de que, neste momento, há gente do outro lado do mundo convicta de que eu preciso urgentemente de um terapeuta da fala. Merde.
A vida, pelo menos a minha, é de uma esquizofrenia perfeita. Quase consigo contrariar aquela irritante máxima de que no man is an island, quase consigo que as pessoas acreditem que verdadeiramente me interesso, quase roço a normalidade, seja lá o que isso for. Impressionante. Tem dias em que fico, de facto, impressionada comigo, há que dizê-lo. Abençoado sedoxil.
Durante muito tempo soube que todo este secretismo comportava algo de profundamente estranho e errado. Achei que aquele não era seguramente o sítio certo para se estar, que aquele lugar me fazia mal. Com o tempo, habituei-me e fui ficando. Uns dias mais conformada do que outros, é verdade, mas habituei-me e fui ficando. Hoje acho-te piada e surpreendo-me. Mas será que tu nunca te deste ao cuidado de perceber que estavas a criar um monstro pejado de inseguranças.
Subscrever:
Comentários (Atom)


