Falo e escrevo em português. Não consigo exprimir-me tão bem em nenhuma outra língua. É a minha. Quando o gato me revira a gaveta das cuecas, bramo em espanhol. Coño e Puta Madre, aliviam-me os fígados. Mesmo. Nos últimos dois anos escrevi, falei e trabalhei em inglês [intervalando com tétum]. Sounds good. Há duas semanas voltei às aulas de árabe. Reviver o passado na Mesquita Central. Pânico. Hoje estive meia hora a tentar impressionar quem esteve do outro lado da linha com o pouco francês de que ainda me lembro. Quando desliguei a chamada fiquei com a impressão de que, neste momento, há gente do outro lado do mundo convicta de que eu preciso urgentemente de um terapeuta da fala. Merde.
A vida, pelo menos a minha, é de uma esquizofrenia perfeita. Quase consigo contrariar aquela irritante máxima de que no man is an island, quase consigo que as pessoas acreditem que verdadeiramente me interesso, quase roço a normalidade, seja lá o que isso for. Impressionante. Tem dias em que fico, de facto, impressionada comigo, há que dizê-lo. Abençoado sedoxil.
Durante muito tempo soube que todo este secretismo comportava algo de profundamente estranho e errado. Achei que aquele não era seguramente o sítio certo para se estar, que aquele lugar me fazia mal. Com o tempo, habituei-me e fui ficando. Uns dias mais conformada do que outros, é verdade, mas habituei-me e fui ficando. Hoje acho-te piada e surpreendo-me. Mas será que tu nunca te deste ao cuidado de perceber que estavas a criar um monstro pejado de inseguranças.
Curioso. Houve um tempo em que nunca te faltaram as horas. Quase impostas, quase sôfregas, quase claustrofóbicas. Eu devia saber melhor. Merda.
Sem considerações de maior dizer apenas que é possível, sim, ter-se mundo sem se sair do bairro onde sempre se viveu mas que atravessar fronteiras é infinitamente melhor. Que o sítio de onde vimos não tem que forçosamente condicionar o lugar para onde vamos e onde nos esperam. Que os sonhos não raras vezes se cumprem na vida daqueles em que acreditam e que ser-se constantemente constante tem custos acrescidos. Que atrás de tempos vêm tempos e que nada é eterno. Quanto muito, o que sobra no fim de tudo são cumplicidades de longa data. Que sabe bem afastarmo-nos de gente que não acrescenta nada aos nossos dias e que, quase sempre, quem nos desilude é quem nos é mais querido. Mas sobrevive-se. Sempre.