É recorrente dizer-se que Deus
não demora, Ele capricha. Tudo bem. Se não é para ser que não seja. Se há
melhores oportunidades por aí, venham elas. Se a ideia é testar-me os níveis de
resiliência, estamos cá para isso. Agora, convenhamos, é inevitável que de vez
em quando me venha à ideia o que poderia ter sido e não foi, certo. Madagáscar,
República Democrática do Congo e Kosovo. Out. Next.
O paradoxo do fim.
Uma relação termina quando, a um dado momento, o outro se esqueceu de nós e as nossas memórias se tornam insuportáveis. O esquecimento de um e as memórias do outro, uma vez conjugados, mais do que uma relação de causa efeito, abrem sempre caminho para um lugar comum: o paradoxo de quem já não estando presente ainda assim não se foi embora bem como o silêncio das discussões que se travam quando já ninguém nos ouve.
É incrível como um simples
telefonema teu consegue destabilizar-me por completo. Uma correlação quase
perfeita entre o som da tua voz e a falência do meu sistema nervoso. O coração
que dispara, as mãos que tremem descontroladamente, o cérebro que me falha. Não
sei o que me passou pela cabeça quando vi o teu nome a piscar no visor. Até
sei. Mas não tinha nada a ver com sapatos perdidos no tempo. Disso tenho a
certeza. Terminada a chamada ali fiquei eu
com o telefone agarrado às mãos e aquele sentimento de quem foi exposto ao
ridículo. Sapatos, valha-me Deus. E eu a pensar que finalmente irias
convidar-me para tomar um café.
My God, help me to survive this deadly love.
Ao que julgo saber a vida corre-te bem. Duas das tuas maiores preocupações foram esbatidas. Tudo se reordenou e sabe-te bem o conforto da vida que tens e levas. Durante muito tempo comprei a ideia da "aparência". Que vivias uma vida que não te agradaria mas que tal se assumiria quase como que uma inevitabilidade. Um disparate pegado. Não há vidas de aparência. Cada um tem o que escolhe, vive em conformidade com isso e, quando afirma o contrário, não passa de uma vergonhosa mentira. Uma fraude, vivida dia a dia. É o que é.
Broken embraces.
A minha mãe, a minha verdadeira mãe, morreu tinha eu vinte seis anos. Lamento dizer-te mas tu não és nem nunca serás um décimo da mulher que ela foi. Com muita pena minha, confesso. Mas as coisas são como são. Nunca percebeste que a consanguinidade não é condição de afecto. Nem aqui nem em lado nenhum do mundo. E que não raras vezes as pessoas recebem no fim da vida parte do que deram ou não deram aos outros. No fim de tudo fica uma espécie de respeito que se reflecte numa espécie de dever. Apenas isso. Sem gratidão, sem boas memórias, sem afectos dos bons, com a certeza de que há incompatibilidades irremediáveis. Tu conseguiste gravar-me na pele o pior de mim. Este lado obscuro, instável, pérfido, desequilibrado, que tenho de gerir todos os dias. É suposto agradecer-te o quê, diz-me.
Faz tempo que me sinto agoniada. Não é nervoso miudinho, não é ansiedade, é uma agonia constante. Da vida aqui, dos outros, do reflexo no espelho. Ainda pensei numa qualquer crise de vesícula, mas não. Tudo me enfada, nada me apetece, o inferno em mim. Sempre o inferno em mim. Um inferno feito de cansaço, de inquietação, de uma profunda inconstância, a pressa de chegar a casa, seja lá onde isso for. Este desapego feito de desprendimento. O sentimento de não pertença, nem aqui nem em lado algum. Ainda pensei numa qualquer crise de vesícula, mas não. É uma agonia. Uma coisa que não me larga.
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