Há dias que transportamos pela vida fora. 24 de Fevereiro de 2008 é um deles. Já tinha decidido que não voltarias a privar-me do que quer que fosse. O Pavilhão Atlântico estava praticamente cheio. Monsieur Charles Aznavour revelar-se-ia absolument extraordinaire. Ao som de La Bohème, revi dez anos de vida. Aznavour [ou a memória de ti] mexe-me com os batimentos cardíacos. Nada a fazer.

res·sen·ti·men·to


No matter how much you revisit the past, there's nothing new to see. So keep in mind that resentment is like holding your breath. You'll soon start to suffocate. 

Não é que este andar só pela vida me faça confusão. Nunca fez. Não sou mulher de muitos medos mas há dias em que penso como seria ter quem me pegasse na mão. Sem constrangimentos nem embaraços. Assim um espécie de afecto, coisa simples, no meio de uma praça qualquer. Ou um abraço. De um abraço eu ia gostar. Talvez quem sabe um beijo na testa e um sorriso. Sem constrangimentos nem embaraços. Às vezes penso como seria ter quem me pegasse na mão. Assim um espécie de afecto, coisa simples.

Hombres Sagrados.

Life in a container. That moment when you burst out crying alone and you realise that no one truly knows how unhappy you are because you don't want anyone to know.
A mentira requer inteligência. A perpetuação da mesma também. Se é para inventar uma história que esta faça sentido. Que faça sentido no tempo e que o destinatário daquela não tenha uma memória tão filha da puta quanto eu. Apenas isso. 

Às vezes gostava de não ter um raciocínio tão rápido e de não ser tão perspicaz. Palavra de honra. Com o tempo aprendi a desenvolver um mecanismo que me permite fazer de conta que não percebi. Que meia dúzia de palavras conjugadas me passaram ao lado. Aprendi que talvez não valha a pena estar sempre a confrontar os outros com o óbvio. Com o enredo de enganos que constroem e julgam envolver os demais. A mentira requer inteligência. A omissão de factos também. Às vezes gostava de não ter um raciocínio tão rápido e de não ser tão perspicaz. Acho que seria mais feliz.
Quando a vida nos maltrata é tão fácil chegarmo-nos aos outros. Tão fácil perceber quem saltou do barco e quem se manteve ali firme. Tão óbvio saber quem é quem. Complicado, mesmo, é quando a vida nos corre bem, do tipo bem para caralho. Uma pessoa até aumenta de tamanho. Enche a boca toda só para dizer "eu". Eu isto, eu aquilo, eu [quero mais é que os outros se fodam]. Tudo bem. As pessoas podem fazer a gestão dos seus timings da forma que melhor entenderem. Podem ter lapsos, momentos  de amnésia, podem assobiar para o lado ou olhar de alto. As pessoas podem tudo. Tudo. Até podem arrepiar caminho e deixarem de ser tão previsíveis. Chateia-me, pá, esta coisa de estar sempre um passo à frente. Passo por maluca sem necessidade nenhuma.
A abrir caixas de Pandora desde 1996. De forma perfeitamente consciente, de um modo absolutamente voluntário. Há pessoas masoquistas, caralho. Eu sou uma delas. 
► Keep an eye on UN Year Book.
► Keep an eye on Geneva - Universities & Training courses.
► Keep an eye on Transparency International.
Gosto tanto quando te lembras de mim. Assim do nada, sem motivo algum ou razão aparente. Só porque sim. Porque te apetecia ver-me só mais um bocadinho, mais uma vez. Gosto tanto quando te lembras de mim, me aconchegas no teu peito e dizes que sou importante. E te importas comigo para logo de seguida me beijares a testa repetidamente. Esta cumplicidade que temos, o teu corpo nas palmas das minhas mãos, a ternura quando me afastas o cabelo da cara. Os pequenos gestos. O almoço na pizzaria do bairro. Podias não ter atravessado meia cidade. Fizeste questão de passar por aqui. Gosto tanto quando te lembras de mim. 
Eu poderia ser um pouco mais normal. Um pouco menos ansiosa. Ter uma mente um pouco menos hiperactiva. Aprender a esperar um pouco mais. Contentar-me aos poucos com o que a vida me dá. Mas não. Essa coisa do pouco mexe-me com os nervos. O vai-se andando, o menos mal. Que neura. Que falta de pachorra. Eu sou pelos desafios, pelo fascínio do improvável, pelo impossível, qual roleta russa, em jeito de vai ou racha, é agora ou nunca. E isto tem dias em que cansa. Outros em que dá uma adrenalina tremenda. Eu poderia ser um pouco mais normal.

I'm in the dark here.

Não sou pessoa que inveje os demais. As lutas que travo são tão minhas, tão comigo, tão desgastantes, que objectivamente raras são as vezes que olho para o lado. Quanto muito gostaria, muito de vez em quando, de ter tido as oportunidades que outros tiveram. E é só isso que me mói. Estou farta de parir a vida a ferros. Farta. 
É recorrente dizer-se que Deus não demora, Ele capricha. Tudo bem. Se não é para ser que não seja. Se há melhores oportunidades por aí, venham elas. Se a ideia é testar-me os níveis de resiliência, estamos cá para isso. Agora, convenhamos, é inevitável que de vez em quando me venha à ideia o que poderia ter sido e não foi, certo. Madagáscar, República Democrática do Congo e Kosovo. Out. Next.
Aqui onde me encontro, aconchego o gato que dorme no meu colo. Baixo o som à televisão, tapo-me com a manta e deixo-me ficar. Amanhã é outro dia. Amanhã será sempre outro dia. 
Mensagem recebida. Estou em crer que te terei feito um enorme favor, se queres saber. De qualquer forma o erro de análise foi meu. Estava longe de imaginar que tudo isto não passava de um "assunto pendente". 

O paradoxo do fim.

Uma relação termina quando, a um dado momento, o outro se esqueceu de nós e as nossas memórias se tornam insuportáveis. O esquecimento de um e as memórias do outro, uma vez conjugados, mais do que uma relação de causa efeito, abrem sempre caminho para um lugar comum: o paradoxo de quem já não estando presente ainda assim não se foi embora bem como o silêncio das discussões que se travam quando já ninguém nos ouve.
É incrível como um simples telefonema teu consegue destabilizar-me por completo. Uma correlação quase perfeita entre o som da tua voz e a falência do meu sistema nervoso. O coração que dispara, as mãos que tremem descontroladamente, o cérebro que me falha. Não sei o que me passou pela cabeça quando vi o teu nome a piscar no visor. Até sei. Mas não tinha nada a ver com sapatos perdidos no tempo. Disso tenho a certeza. Terminada a chamada ali fiquei eu com o telefone agarrado às mãos e aquele sentimento de quem foi exposto ao ridículo. Sapatos, valha-me Deus. E eu a pensar que finalmente irias convidar-me para tomar um café. 

My God, help me to survive this deadly love.

O ressentimento é tão mais difícil de gerir quando o alvo somos nós e não o outro. Porque, convenhamos, a falta de tomada de decisão do outro não justifica nem desculpa a ausência de limites impostos por nós. A vida não raras vezes conduz-nos a lugares errados, é verdade. Todavia permanecer neles foi e é uma opção nossa. Sujeitarmo-nos a um trato menor foi e é uma opção nossa. Não ter seguido em frente ao menor sinal de falta de respeito ou de incongruência foi e é uma opção nossa. Viver por um tempo, absolutamente intolerável, uma cegueira auto-imposta, alheia aos limites da razoabilidade, foi e é uma opção nossa.  Por isso é que o ressentimento é tão mais difícil de gerir quando o alvo somos nós e não o outro. 
Ao que julgo saber a vida corre-te bem. Duas das tuas maiores preocupações foram esbatidas. Tudo se reordenou e sabe-te bem o conforto da vida que tens e levas. Durante muito tempo comprei a ideia da "aparência". Que vivias uma vida que não te agradaria mas que tal se assumiria quase como que uma inevitabilidade. Um disparate pegado. Não há vidas de aparência. Cada um tem o que escolhe, vive em conformidade com isso e, quando afirma o contrário, não passa de uma vergonhosa mentira. Uma fraude, vivida dia a dia. É o que é. 

Broken embraces.

Fazes-me falta, sabes. Mais do que gostaria de admitir, confesso. A cumplicidade dos cheiro, dos olhares e os sorrisos. O teu lado doce foi sempre tão mais terno, sempre. Acontece que infelizmente tu sempre foste mais do que isso. E foi nessa tua complexidade, intrincada, desconfiada, desgastante, que tudo se perdeu. Uma pena. Porque verdadeiramente o teu lado doce foi sempre tão mais terno. E o melhor de ti. Convertido no melhor de mim. 
A minha mãe, a minha verdadeira mãe, morreu tinha eu vinte seis anos. Lamento dizer-te mas tu não és nem nunca serás um décimo da mulher que ela foi. Com muita pena minha, confesso. Mas as coisas são como são. Nunca percebeste que a consanguinidade não é condição de afecto. Nem aqui nem em lado nenhum do mundo. E que não raras vezes as pessoas recebem no fim da vida parte do que deram ou não deram aos outros. No fim de tudo fica uma espécie de respeito que se reflecte numa espécie de dever. Apenas isso. Sem gratidão, sem boas memórias, sem afectos dos bons, com a certeza de que há incompatibilidades irremediáveis. Tu conseguiste gravar-me na pele o pior de mim. Este lado obscuro, instável, pérfido, desequilibrado,  que tenho de gerir todos os dias. É suposto agradecer-te o quê, diz-me.
Faz tempo que me sinto agoniada. Não é nervoso miudinho, não é ansiedade, é uma agonia constante. Da vida aqui, dos outros, do reflexo no espelho. Ainda pensei numa qualquer crise de vesícula, mas não. Tudo me enfada, nada me apetece, o inferno em mim. Sempre o inferno em mim. Um inferno feito de cansaço, de inquietação, de uma profunda inconstância, a pressa de chegar a casa, seja lá onde isso for. Este desapego feito de desprendimento. O sentimento de não pertença, nem aqui nem em lado algum. Ainda pensei numa qualquer crise de vesícula, mas não. É uma agonia. Uma coisa que não me larga.
O bairro está em silêncio. Só o rádio da vizinha do andar de cima toca intervalado com os latidos do cão que vive dois prédios em frente. Aqui, desta cave quase sem janelas onde vivo, conheço quem me rodeia pelo sons. Faz tempo que não oiço os gritos do marido da vizinha do andar de cima. Quase uma semana estou em crer. Desde então, tem por companhia o rádio que toca  insistentemente. De vez em quando oiço-a chorar. Por certo me ouvirá também. 

© Maria [20.04.2013]

 Hello darkness my old friend.
Time to move forward.

I. Os constrangimentos dos outros são os constrangimentos dos outros. Não são os meus. Consequentemente, eu não tenho que [nem aceito] ser alvo dos mesmos nem tão pouco sofrer com os danos colaterais de problemas cuja resolução não ata nem desata.

II. Não raras vezes as pessoas aceitam e sujeitam-se, em nome de algo que [erroneamente] consideram maior, a um trato menor. Pois bem. Dizer apenas que já tive a minha dose. Been there, done that. Jurei para nunca mais.

III. Eu não sou, nunca fui, uma mulher de meio termos. Meias presenças, meios afectos, meio isto, meio aquilo. Não gosto de metades em nada na vida. E também não gosto de me repetir. As conversas são importantes, sim. Ajudam a clarificar e a esclarecer pontos de vista, sentimentos, dúvidas e caminhos. Agora, quando repetidas até à exaustão mais não são do que o sintoma de duas coisas: a indiferença do receptor e a persistência cega do emissor.

The night can be a dreadful time for lonely people.

Houve um tempo em que me olhei ao espelho e, confesso, não me reconheci. Vinha cansada de tanto destrate e estava disforme. Olhei de novo e não me reconheci. Nesse dia, assegurei-me de que nunca mais, em toda a minha vida, me contentaria com as sobras fosse lá do que fosse. Por isso, bem vês, o problema não és tu. Sou eu.

De repente deu-me para ser esquisita e torcer o nariz a restos. Não quero, não gosto, já comi que chegue e cansei-me de esperar pacientemente junto à porta dos fundos que me convidasses para entrar e sentar. Bem vês. O problema não és tu, sou eu. Sou eu quem hoje já não tolera faltas de respeito, esperas sem fim à vista e não aceita menos do que o melhor que a vida tem para lhe dar. Bem vês, o problema não és tu, sou eu.

O tempo tornou-me exigente. E ensinou-me a partir. Assim, sem mais. Com a convicção de que aquilo que sentimos não justifica [não pode justificar] a forma como somos tratados. Hoje sei que nunca mais ninguém voltará a arrancar-me a pele ou a fazer-me mal, só porque sim. Por isso, bem vês, o problema não és tu, sou eu. Sou eu quem, mesmo correndo o risco de se perder por aí, já não sabe viver de afectos pela metade.
Morreste-me há treze anos e eu sinto falta do teu cheiro e das tuas mãos no meu cabelo todos os dias. Da forma como me chamando de “minha neta” me fazias sentir a pessoa mais amada e importante do mundo inteiro. Ainda hoje precisei tanto de ti. 
Room 228. Abba Berlin Hotel. Lietzenburger Str. 89.

Há um tempo na nossa vida em que, de uma forma mais ou menos esporádica, damos azo àquela velha tendência de querer que os outros e as circunstâncias mudem, pelo simples facto de considerarmos que a razão está do nosso lado. E, depois, tempos há em que concluímos que afinal ter a dita razão, por si só, acrescenta muito pouco aos nossos dias. E é nessa altura que desistimos de nos queixar do vento, de esperar que este mude e decidimos tão somente ajustar as velas.
Na gestão dos equilíbrios que, vá-se lá compreender porquê, ainda sentes que tens de fazer, eu sou, sempre fui, o elo mais descartável. Digas tu o que disseres.
Grata por lá ter estado. Muito. 

"17 de Março de 2012. São 6 horas da manhã. Ainda há pouco cheguei a casa e já estou de saída. Por aqui misturam-se os dias com as noites, o cansaço é tremendo, o ritmo alucinante mas estou a adorar cada segundo. Hoje milhares de timorenses são chamados às urnas e o mais incrível no meio disto é que eu estou aqui para ver. Experiência incrível, minha gente, incrível. Vamos lá Timor. Tem tudo para dar certo."
Dizes, muito de vez em quando e de uma forma quase convicta, que gostas de mim quando na realidade não fazes ideia do que isso seja. Senão repara, em rigor nós só podemos gostar de quem verdadeiramente conhecemos e, francamente, tu nunca te deste a esse trabalho. Até podia dar-se o caso de eu ser uma daquelas mulheres cheia de caprichos, exigências, expectativas, extraordinariamente complexa, seja lá o que isso for e sabe Deus que mais. Mas não. Conhecer-me requer apenas ouvir-me. Simples. Até porque via de regra digo o que penso, o que quero, do que gosto, essas coisas. Por isso bem vês, estranhamente se ama quem não se ouve pela simples razão de que não se conhece. Tu não sabes o que penso nem o que quero nem do que gosto. Lamento.
Eu lido bem com as imperfeições. Pelo menos com as minhas lido bem. Sei quem sou e de onde venho e isso basta-me. Agora, só tu para semeares em mim tamanho desconforto, tamanha insegurança. Só eu para nisso consentir.
Sometimes God's rejection is God's protection. Que venham outras oportunidades, que se abram outras portas, que eu não me esqueça das pessoas com quem pude contar e daquelas outras que nem se deram ao trabalho.
I'll be fineJust not today. Hoje, em bom rigor, já só quero que o dia acabe rápido para poder ir para casa deprimir-me. Com tudo a que tenho direito.
Falo e escrevo em português. Não consigo exprimir-me tão bem em nenhuma outra língua. É a minha. Quando o gato me revira a gaveta das cuecas, bramo em espanhol. Coño e Puta Madre, aliviam-me os fígados. Mesmo. Nos últimos dois anos escrevi, falei e trabalhei em inglês [intervalando com tétum]. Sounds good. Há duas semanas voltei às aulas de árabe. Reviver o passado na Mesquita Central. Pânico. Hoje estive meia hora a tentar impressionar quem esteve do outro lado da linha com o pouco francês de que ainda me lembro. Quando desliguei a chamada fiquei com a impressão de que, neste momento, há gente do outro lado do mundo convicta de que eu preciso urgentemente de um terapeuta da fala. Merde.
A vida, pelo menos a minha, é de uma esquizofrenia perfeita. Quase consigo contrariar aquela irritante máxima de que no man is an island, quase consigo que as pessoas acreditem que verdadeiramente me interesso, quase roço a normalidade, seja lá o que isso for. Impressionante. Tem dias em que fico, de facto, impressionada comigo, há que dizê-lo. Abençoado sedoxil.
Durante muito tempo soube que todo este secretismo comportava algo de profundamente estranho e errado. Achei que aquele não era seguramente o sítio certo para se estar, que aquele lugar me fazia mal. Com o tempo, habituei-me e fui ficando. Uns dias mais conformada do que outros, é verdade, mas habituei-me e fui ficando. Hoje acho-te piada e surpreendo-me. Mas será que tu nunca te deste ao cuidado de perceber que estavas a criar um monstro pejado de inseguranças.
Curioso. Houve um tempo em que nunca te faltaram as horas. Quase impostas, quase sôfregas, quase claustrofóbicas. Eu devia saber melhor. Merda.
Sem considerações de maior dizer apenas que é possível, sim, ter-se mundo sem se sair do bairro onde sempre se viveu mas que atravessar fronteiras é infinitamente melhor. Que o sítio de onde vimos não tem que forçosamente condicionar o lugar para onde vamos e onde nos esperam. Que os sonhos não raras vezes se cumprem na vida daqueles em que acreditam e que ser-se constantemente constante tem custos acrescidos. Que atrás de tempos vêm tempos e que nada é eterno. Quanto muito, o que sobra no fim de tudo são cumplicidades de longa data. Que sabe bem afastarmo-nos de gente que não acrescenta nada aos nossos dias e que, quase sempre, quem nos desilude é quem nos é mais querido. Mas sobrevive-se. Sempre.

The pursuit of happiness.

Em 2012 aprendi que posso viver sem água, sem luz, sem Internet, sem rede telefónica, sem televisão, sem comer carne de vaca, carne de porco, fiambre, peixe, bolinhos, salgados, pizzas e afins, que o mundo não acaba nem eu morro por causa disso. Aprendi que as pessoas têm uma capacidade de adaptação na adversidade que muitas vezes nem sabem. Que a cada momento somos capazes de nos superar e surpreender. Que, num ano e meio, dois pares de calças e cinco t-shirts servem perfeitamente. Que a Terra é um lugar imenso e que vale a pena ousar, sonhar, ir mais longe e determinarmo-nos por aquilo em que acreditamos. Aprendi que a saudade é das coisas mais difíceis de gerir e que a distância nos dá a exacta percepção de quem é quem na nossa vida. Em 2012 segurei na mão de Deus e confiei. Nele e em mim. Não me arrependi.
Tive um mestre na minha vida, entendes. O melhor se queres saber. Por isso sobre distanciamentos auto-impostos e frieza no trato não me vens ensinar nada, rigorosamente nada, que eu não saiba de cor desde os sete anos de idade. Quanto muito só conseguirás voltar a amarfanhar-me por dentro.
Essa coisa de que o tempo nos molda e nos traz a serenidade dos anos que correm não passa de uma valente treta. O tempo, quanto muito, refina-nos. Aperfeiçoa o que somos e o que trazemos em nós. A perfídia e a barbárie não desaparecem, os ímpetos e os tumultos não soçobram e a instabilidade marcada no código genético não esmorece. Tal como a ânsia e o desassossego. Tal como o amor desmedido, o medo desmedido, a agitação desmedida. O estar e o partir, o querer tudo e o rejeitar em absoluto. A felicidade desmesurada e a agonia excessiva. Assim, numa fracção de segundos. O tempo não molda ninguém. Muito menos quem nasce com uma bomba relógio dentro do peito.

Insuportável não é que tenhas dúvidas ou inseguranças. Todos temos. Insuportável é que os teus fantasmas se projectem em mim de uma forma tão violenta e recorrente e que a minha palavra não te baste. Até porque essa coisa de nos porem em causa por algo que nunca fizemos, nunca sequer  pensámos, sem qualquer fundamento, sem razão aparente, sem motivo algum, tem sempre o efeito perverso do despeito e do enxovalho.
Um ano e meio de Sudeste Asiático terminou aqui. Quem sabe um dia talvez  consiga voltar. 

Das cicatrizes do meu chão antigo.

No dia em que nasci já trazia em mim todos os pecados do mundo. Ninguém nasce puro, é sabido e o caminho da redenção é tortuoso. Sempre. Vaidade, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e acídia. Está cá tudo.
Se a esta altura do campeonato eu não tivesse já uma noção muito exacta de quem são os meus verdadeiros amigos, convenhamos, o melhor seria fazerem-me uma lobotomia. Por isso, oh ignorados da minha vida poupem-se a esforços. Acresce o facto de eu não gostar que me toquem [vulgo festinhas no ombro, que nojo] nem ter paciência para descobrir em cinco segundos quão grande é a amizade que vocês [assim, de repente, sei lá] me têm.

 Moi, je sais tous tes sortilèges. Tu sais tous mes envoûtements.
Seriously, I am not really a people person. I just said that to get the job.
Fecham-se e abrem-se os olhos e uma década passou a correr. Ainda ontem uma família inteira recusava-se a dar-me tal notícia. Ainda ontem a minha mãe assumiu para si tal tarefa. Ainda ontem andei horas e horas caminhando perdida pelas ruas da minha cidade sem que me lembre, ainda hoje, quais os caminhos percorridos. Ainda ontem o adro da igreja estava cheio, carregado de luto, e eu sem suportar que as pessoas me tocassem, não que o seu conforto não me fosse querido mas tão só porque até a pele me doía. Ainda ontem os sinos tocaram às três e meia da tarde e nesse momento percebi que tudo aquilo era real. Às três e meia da tarde, os sinos tocaram, as pernas traíram-me e eu ajoelhei-me diante do teu corpo. Nunca até então tinha percebido que coisa era essa a que chamavam perda e que era capaz de nos deixar prostrados ao ponto de sermos incapazes de dizer o que seja, gritar o que seja, fazer o que seja.

Ainda hoje não consigo ouvir tocar os sinos de uma igreja. Ainda hoje sinto a falta do teu cheiro, das tuas mãos no meu cabelo, da forma como me chamando de “minha neta” me fazias sentir a pessoa mais amada e importante e especial do mundo inteiro. Ainda hoje, avó, no meio de todos livros, de todas as porcelanas e pratas, no meio das mantas e dos quadros, no meio de toda aquela ordem particular que reina em minha casa, as tuas fotografias continuam no hall de entrada e no meu quarto. Ainda hoje, preciso de te ver assim que chego a casa e de acreditar que continuas a vigiar-me os sonos.
Eu não suporto as manhãs e eu não gosto de falar ao telefone. Ora se A + B = C, isto significa que C - B = A. Dito de outra forma, não me liguem de manhã, caralho. Ou então, se o assunto for mesmo, mesmo, urgente e a vossa chamada uma inevitabilidade porque, com tanta gente [biliões, pá, biliões de gente] por esse mundo fora, eu sou [na vossa cabeça, só pode] a única pessoa em condições de vos ajudar, não perguntem se estou mal disposta. Digam ao que vêm e ponham-se na alheta rapidinho.
 Speak softly love.
Houve uma época da minha vida em que me ocupava em demasia com pessoas e assuntos que acrescentavam muito pouco aos meus dias. Mais tarde, num acto de inteligência ou de puro egoísmo, fui fechando portas. Hoje, só me dou a quem, com quem, como e quando quero. 

© Maria [15.03.2010]

Orgulhosamente só não é um “estado de alma” para quem quer, mas para quem pode. Ou dito de outra maneira, eu dispenso bem o ingresso em grupos [leia-se carneiradas] e não faço seguramente o papel de emplastre ou penetra. Por isso, pessoas que costumam fazer tudo juntinhas, qual par de jarras, wake up. Uma coisa é o isolamento forçado [do tipo ninguém quer estar perto de vós] outra é o isolamento auto imposto [do tipo ponham-se no caralho que eu não vos quero ao pé de mim]. Get the difference.
Eu aviso sempre  que não tenho a menor vocação para pessoas, que bicho do mato mais bicho não há, que entrar no meu mundo leva tempo, que isto não é chegar, conhecer e vai de ficar, logo ali, best friends forever. Eu aviso sempre. Mas, por alguma razão, há quem pense que estou a brincar, que não é bem assim, que me estou a armar em DIVA, a fazer de difícil, eu sei lá, e depois ficam todos muito ofendidos com o meu ar enojado sempre que me vêm com putativas intimidades.

Eu não gosto de beijar pessoas que não me dizem nada, não faço amigos no local de trabalho[só conhecidos e mesmo assim], contam-se pelos dedos de uma mão quem frequenta a minha casa, não preciso de companhia para ir à casa de banho nem para almoçar e não quero saber da vida dos outros para nada. Eu sou uma snob, pá. Mas aviso sempre.
Há tempos, diziam-me quase a medo que a primeira impressão com que ficaram quando me conheceram foi a de que eu era uma pessoa fria. Sorri. Convenhamos, o que me estás a querer dizer é que ficaste com a ideia de que eu era uma snob, uma cabra petulante, uma arrogante de merda que olha os outros de cima a baixo, sempre com o sobrolho empinado. É verdade, eu sou tudo isso. A grande vantagem é que só desço da escadaria para me dar com quem quero.
Há um tempo na nossa vida em que, de uma forma mais ou menos esporádica, damos azo àquela velha tendência de querer que os outros e as circunstâncias mudem, pelo simples facto de considerarmos que a razão está do nosso lado.Depois, tempos há em que concluímos que afinal ter a dita razão, por si só, acrescenta muito pouco aos nossos dias. Nessa altura, desistimos de nos queixar do vento, de esperar que este mude e decidimos tão somente ajustar as velas.
À semelhança de JC que, depois de baptizado, foi conduzido ao deserto para ser tentado pelo demo, todos nós numa determinada altura das nossas vidas somos levados a esse mesmo lugar. E é precisamente aí, na adversidade, que a essência de um indivíduo é tentada e testada. O meu deserto pode ser árido e a minha travessia longa e dura mas eu nunca fui mulher de vender a alma ao Diabo.
Quando as pessoas crescem, se moldam e se formam num contexto adverso e de extrema solidão, tal não significa que tenham perdido a capacidade de dar, de se interessar ou de apoiar os outros. Significa, tão só e apenas, que aprenderam a não contar com os demais para o que quer que seja.
Eu ainda sou do tempo em que as pessoas iam à mercearia do Bairro [os mini, super e hiper-mercados eram coisa de estrangeiros] comprar não aquilo que verdadeiramente necessitavam mas tão só aquilo que o dinheiro de que dispunham permitia adquirir. No dia a dia, eram irrelevantes as preferências e os gostos de cada um. Comprava-se a fruta da época porque era a mais barata, pediam-se seis fatias de fiambre, quatro carapaus e, regra geral, as coisas eram embrulhadas em papel pardo que depois se aproveitava para absorver o excesso de óleo quando se fritava a comida.
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Hoje, passados quase trinta anos, na mercearia do Bairro, voltei a recuar no tempo quando uma Senhora confrontada com o valor final das compras que tinha no saco, olhou para o dinheiro que trazia na mão e vagarosamente, com os olhos baixos, tirou duas batatas, três cenouras, um nabo, um shampoo e perguntou “E agora? Acha que chega?”

Senti-me envergonhada por estar ali, por ter assistido a algo que não é bonito de se ver, porque a fragilidade dos outros não devia ter plateia, porque logo hoje não tinha dinheiro suficiente comigo, porque me lembrei da minha avó a pedir-me quase em silêncio “Hoje não pode ser querida. Talvez amanhã. Amanhã a avó compra-te aquelas bolachas, sim?”.
Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo.
 Pai, afasta de mim esse cálice.

Das cicatrizes do meu chão antigo.



A minha vida teve um AT [Antes de Ti] e um DT [Depois de Ti]. Foram dez anos, com um intervalo de dois, seguidos de mais uns meses [um take dois de um filme já visto e que insistimos em retomar]. É indiscutível que parte, grande parte, da mulher que hoje sou foi moldada no aconchego dos teus braços, da tua pele e do teu cheiro. Afinal eu era uma menina com vinte e um anos e tu assumiste na plenitude o papel que Nabokov criou, em tempos, para Humbert.

Nesse tempo, descobri que o amor pode vir em espasmos ou em sussurros, que há sentidos que vão mais além do que o toque, que o prazer acossa-nos ao ponto de um murmurado “fode-me” soar a súplica, que um simples olhar é suficiente para nos cortar a respiração, que numa relação a dois o único limite é o da aceitação das partes e que é possível o controle do ritmo ébrio a que os corpos se movimentam.

Percebi que há um tempo para fazer amor e um tempo de libertação do que de mais primário há em nós, que há um tempo para conversar e um tempo de silêncios, que há um tempo para insistir e um tempo para esperar, que há um tempo de confiança e um tempo de mágoas, que há um tempo para chegar e um tempo para partir.

E é precisamente este último que importa cumprir. Não é aceitável que, volvidos dois anos, continues a invadir-me os sonhos e que, enquanto durmo, te acomodes como se nunca tivesses saído da minha cama. Não é, sequer, viável se considerarmos que não tivemos qualquer contacto desde essa data, que tu nunca mais soubeste de mim e que eu nunca mais soube de ti.

Eu sei que a distância marcada pelo tempo, pelo espaço e pelos vinte anos que nos separam nunca foi condição. Sei que ambos permanecemos demasiado importantes na vida um do outro, que tu ainda te lembras de mim e que há sempre algo no meu quotidiano que traz de volta o teu cheiro. Sei que lamentas o não teres decidido e eu o não ter esperado um pouco mais. Sei que daqui a vinte anos continuaremos a lembrar-nos mutuamente e a velha questão de sempre [que será feito de ti] permanecerá sem resposta. Só que a vida é feita de tempos. E este é o tempo de partires. Porque eu preciso, por mim.
Haver quem se assuma publicamente conhecedor e especialista em matéria de Iluminismo só porque leu a “Crítica da Razão Pura” de Kant é tão hilariante e disparatado quanto eu, uma curiosa da secção de Economia dos jornais diários, começar por aí a soltar o John Maynard Keynes que há em mim. A lobotomia, Senhor, trazei de volta a lobotomia.

Há pessoas que pura e simplesmente não conseguem manter a puta da boca fechada. Todavia, não o conseguindo, podiam ainda assim partilhar com os demais a triste condição da sua existência, mas não. É sempre muito mais interessante falar da vida alheia, dos projectos e concretizações dos demais, daquilo que os outros têm ou não têm, do que fizeram ou deixaram de fazer. Tenho pena desta gente. Convenhamos, deve ser no mínimo deprimente não ter vida digna de relato.
A correcta conjugação do verbo “dar” não só não é susceptível de ser feita de qualquer modo como requer um despojamento que se incute desde criança e se pratica dia a dia. Quando alguém precisa e eu me predisponho a dar, dou o melhor. O melhor de mim, o melhor que tenho, as coisas de que mais gosto, o mais bonito e, se possível, a estrear.

Por isso, sempre me fez [e continua a fazer] muita confusão pessoas que concebem o acto de dar como uma oportunidade para se desfazerem de tudo quanto é caco velho, partido, pindérico e horroroso que lá têm por casa. Ora o que não serve para mim, não servirá seguramente para os outros. Acresce que quem dá com o coração, dá na exacta medida do que gostaria de receber um dia se se encontrasse em igual situação de carência.

Damaged people are dangerous. They know they can survive.


Diz-se por aí que sou uma mulher de Almodóvar. Uma mulher de génio e de raivas, uma mulher de paixões e amores, ora escondidos ora perdidos, presa a um passado que teima em voltar nas horas mais inconvenientes. A verdade é que eu nunca fui uma pessoa de afectos fáceis. A vida encarregou-se de me trazer até onde me encontro e o resto da calçada fui eu quem a subiu. Com passada larga, com passada estreita, umas vezes de rojo e outras já refeita, uns dias sozinha, outros levada pela mão. A verdade é que eu sou eu mas também sou os outros e a minha condição.